O Capital: crítica da economia política Livro I O processo de produção do capital
معرفی کتاب «O Capital: crítica da economia política Livro I O processo de produção do capital» نوشتهٔ Karl Marx، منتشرشده توسط نشر Boitempo Editorial در سال 2013. این کتاب در فرمت pdf، زبان pt ارائه شده است.
O primeiro livro de O capital: crítica da economia política (Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomie), intitulado “O processo de produção do capital” (“Der Produktionsprozess des Kapitals”), é o único volume da principal obra de maturidade de Karl Marx publicado durante a vida do autor, morto em 1883. Seu lançamento pela Boitempo – num investimento editorial de dois anos – marca a 16a publicação da coleção MarxEngels e é parte do ambicioso projeto de traduzir toda a obra dos pensadores alemães a partir das fontes originais, com o auxílio de especialistas renomados SUMÁRIO 7 NOTA DA EDIÇÃO 14 Nota da tradução 17 NOTA DA EDIÇÃO ELETRÔNICA 19 APRESENTAÇÃOa 20 I. Do liberalismo burguês ao comunismo 21 Materialismo histórico, socialismo científico e economia política 27 II. Os tormentos da criação 35 III. Unificação interdisciplinar das ciências humanas 45 Método e estrutura d’O capital 49 ADVERTÊNCIA AOS LEITORES DO LIVRO I D’O CAPITALa 56 Ponto I 65 Ponto II 73 CONSIDERAÇÕES SOBRE O MÉTODO1 86 I 86 II 88 III 90 IV 93 V 98 VI 106 O CAPITAL 110 CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA 110 LIVRO I O processo de produção do capital 110 Prefácio da primeira edição 112 Posfácio da segunda ediçãoa 119 Prefácio da edição francesa 132 Posfácio da edição francesa 135 Prefácio da terceira edição alemã 137 Prefácio da edição inglesaa 142 Prefácio da quarta edição alemã 148 Seção I 156 MERCADORIA E DINHEIRO 156 Capítulo 1 157 A mercadoria 157 1. Os dois fatores da mercadoria: valor de uso e valor (substância do valor, grandeza do valor) 157 2. O duplo caráter do trabalho representado nas mercadorias 165 3. A forma de valor [Wertform] ou o valor de troca 172 A) A forma de valor simples, individual ou ocasional 174 1. Os dois polos da expressão do valor: forma de valor relativa e forma de equivalente 174 2. A forma de valor relativa 175 a) Conteúdo da forma de valor relativa 175 b) A determinidade quantitativa da forma de valor relativa 180 3. A forma de equivalente 183 (“Klínai pénte Ãntì oÏkíav”) 188 (“Klínai pénte Ãntì... ösou aï pénte klínai”). 188 Além disso, ele vê que a relação de valor que contém essa expressão de valor condiciona, por sua vez, que a casa seja qualitativamente equiparada ao divã e que, sem tal igualdade de essências, essas coisas sensivelmente distintas não poderiam ser relacionadas entre si como grandezas comensuráveis. “A troca”, diz ele, “não pode se dar sem a igualdade, mas a igualdade não pode se dar sem a comensurabilidade” (o3tH Ïsótjv mb o3sjv summetríav). Aqui, porém, ele se detém e abandona a análise subsequente da forma de valor. “No entanto, é na verdade impossível (to mèn o5n Ãljqeíà Ãdúnaton) que coisas tão distintas sejam comensuráveis”, isto é, qualitativamente iguais. Essa equiparação só pode ser algo estranho à verdadeira natureza das coisas, não passando, portanto, de um “artifício para a necessidade prática”. 188 4. O conjunto da forma de valor simples 190 B) A forma de valor total ou desdobrada 193 1. A forma de valor relativa e desdobrada 193 2. A forma de equivalente particular 194 3. Insuficiências da forma de valor total ou desdobrada 194 C) A forma de valor universal 196 } 196 1. Caráter modificado da forma de valor 196 2. A relação de desenvolvimento entre a forma de valor relativa e a forma de equivalente 200 3. Transição da forma de valor universal para a forma-dinheiro [Geldform] 202 D) A forma-dinheiro 203 } 203 4. O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo 204 Capítulo 2 219 O processo de troca 219 Capítulo 3 230 O dinheiro ou a circulação de mercadorias 230 1. Medida dos valores 230 2. O meio de circulação 240 a) A metamorfose das mercadorias 240 b) O curso do dinheiro 254 c) A moeda. O signo do valor 266 3. Dinheiro 271 a) Entesouramento 272 b) Meio de pagamento 276 c) O dinheiro mundial 284 Seção II 288 A TRANSFORMAÇÃO DO DINHEIRO EM CAPITAL 288 Capítulo 4 289 A transformação do dinheiro em capital 289 1. A fórmula geral do capital 289 2. Contradições da fórmula geral 299 “Porque a crematística é uma dupla ciência, a primeira parte pertencendo ao comércio, a segunda à economia, sendo esta última necessária e louvável, ao passo que a primeira se baseia na circulação e é desaprovada com razão (por não se fundar na natureza, mas na trapaça mútua), o usurário é odiado com a mais plena justiça, pois aqui o próprio dinheiro é a fonte do ganho e não é usado para a finalidade para a qual ele foi inventado, pois ele surgiu para a troca de mercadorias, ao passo que o juro transforma dinheiro em mais dinheiro. Isso explica seu nome” (tókov: juro e prole), “pois os filhos são semelhantes aos genitores. Mas o juro é dinheiro de dinheiro, de maneira que, de todos os modos de ganho, esse é o mais contrário à natureza.”35 310 3. A compra e a venda de força de trabalho 312 Seção III 325 A PRODUÇÃO DO MAIS-VALOR ABSOLUTO 325 Capítulo 5 326 O processo de trabalho e o processo de valorização 326 1. O processo de trabalho 326 2. O processo de valorização 337 Capítulo 6 353 Capital constante e capital variável 353 Capítulo 7 368 A taxa do mais-valor 368 1. O grau de exploração da força de trabalho 368 2. Representação do valor do produto em partes proporcionais do produto 378 3. A “última hora” de Senior 383 4. O mais-produto 387 Capítulo 8 389 A jornada de trabalho 389 1. Os limites da jornada de trabalho 389 2. A avidez por mais-trabalho. O fabricante e o boiardo 394 O capital não inventou o mais-trabalho. Onde quer que uma parte da sociedade detenha o monopólio dos meios de produção, o trabalhador, livre ou não, tem de adicionar ao tempo de trabalho necessário a sua autoconservação um tempo de trabalho excedente a fim de produzir os meios de subsistência para o possuidor dos meios de produção41, seja esse proprietário o kalóv kÃgaqóv [belo e bom]c ateniense, o teocrata etrusco, o civis romanus [cidadão romano], o barão normando, o escravocrata americano, o boiardo valáquio, o landlord [senhor rural] moderno ou o capitalista42. No entanto, é evidente que em toda formação econômica da sociedade onde predomina não o valor de troca, mas o valor de uso do produto, o mais-trabalho é limitado por um círculo mais amplo ou mais estreito de necessidades, mas nenhum carecimento descomedido de mais-trabalho surge do próprio caráter da produção. Razão pela qual, na Antiguidade, o sobretrabalho só é repudiado quando seu objetivo é obter o valor de troca em sua figura autônoma de dinheiro, na produção de ouro e prata. O trabalho forçado até a morte é, aqui, a forma oficial de sobretrabalho. Basta ler Diodoro Sículo43. Mas essas são exceções no mundo antigo. Assim que os povos, cuja produção ainda se move nas formas inferiores do trabalho escravo, da corveia etc., são arrastados pela produção capitalista e pelo mercado mundial, que faz da venda de seus produtos no exterior o seu principal interesse, os horrores bárbaros da escravidão, da servidão etc. são coroados com o horror civilizado do sobretrabalho. Isso explica por que o trabalho dos negros nos estados sulistas da União Americana conservou certo caráter patriarcal, enquanto a produção ainda se voltava sobretudo às necessidades locais imediatas. Mas à medida que a exportação de algodão tornou-se o interesse vital daqueles estados, o sobretrabalho dos negros,e, por vezes, o consumo de suas vidas em sete anos de trabalho, converteu-se em fator de um sistema calculado e calculista. O objetivo já não era extrair deles uma certa quantidade de produtos úteis. O que importava, agora, era a produção do próprio mais-valor. Algo semelhante ocorreu com a corveia, por exemplo, nos Principados do Danúbio. 394 } 400 } 401 3. Ramos da indústria inglesa sem limites legais à exploração 403 4. Trabalho diurno e noturno. O sistema de revezamento 418 5. A luta pela jornada normal de trabalho. Leis compulsórias para o prolongamento da jornada de trabalho da metade do século XIV ao final do século XVII 426 6. A luta pela jornada normal de trabalho. Limitação do tempo de trabalho por força de lei. A legislação fabril inglesa de 1833 a 1864 439 7. A luta pela jornada normal de trabalho. Repercussão da legislação fabril inglesa em outros países 462 Capítulo 9 467 Taxa e massa do mais-valor 467 Seção IV 480 A PRODUÇÃO DO MAIS-VALOR RELATIVO 480 Capítulo 10 481 O conceito de mais-valor relativo 481 Capítulo 11 493 Cooperação 493 Capítulo 12 511 Divisão do trabalho e manufatura 511 1. A dupla origem da manufatura 511 2. O trabalhador parcial e sua ferramenta 515 3. As duas formas fundamentais da manufatura – manufatura heterogênea e manufatura orgânica 518 4. Divisão do trabalho na manufatura e divisão do trabalho na sociedade 529 5. O caráter capitalista da manufatura 538 Capítulo 13 548 Maquinaria e grande indústria 548 1. Desenvolvimento da maquinaria 548 2. Transferência de valor da maquinaria ao produto 566 3. Efeitos imediatos da produção mecanizada sobre o trabalhador 575 a) Apropriação de forças de trabalho subsidiárias pelo capital. Trabalho feminino e infantil 575 b) Prolongamento da jornada de trabalho 584 c) Intensificação do trabalho 591 4. A fábrica 602 5. A luta entre trabalhador e máquina 609 6. A teoria da compensação, relativa aos trabalhadores deslocados pela maquinaria 621 7. Repulsão e atração de trabalhadores com o desenvolvimento da indústria mecanizada. Crises da indústria algodoeira 633 8. O revolucionamento da manufatura, do artesanato e do trabalho domiciliar pela grande indústria 647 a) Suprassunção da cooperação fundada no artesanato e na divisão do trabalho 647 b) Efeito retroativo do sistema fabril sobre a manufatura e o trabalho domiciliar 649 c) A manufatura moderna 651 d) O trabalho domiciliar moderno 655 e) Transição da manufatura e do trabalho domiciliar modernos para a grande indústria. Aceleração dessa revolução mediante a aplicação das leis fabris a esses modos de produzir [Betriebsweisen] 661 9. Legislação fabril (cláusulas sanitárias e educacionais). Sua generalização na Inglaterra 674 10. Grande indústria e agricultura 701 Seção V 704 A PRODUÇÃO DO MAIS-VALOR ABSOLUTO E RELATIVO 704 Capítulo 14 705 Mais-valor absoluto e relativo 705 Capítulo 15 719 Variação de grandeza do preço da força de trabalho e do mais-valor 719 I. Grandeza da jornada de trabalho e intensidade do trabalho: constantes (dadas); força produtiva do trabalho: variável 720 II. Jornada de trabalho: constante; força produtiva do trabalho: constante; intensidade do trabalho: variável 726 III. Força produtiva e intensidade do trabalho: constantes; jornada de trabalho: variável 728 IV. Variações simultâneas na duração, força produtiva e intensidade do trabalho 730 Capítulo 16 734 Diferentes fórmulas para a taxa de mais-valor 734 Seção VI 739 O SALÁRIO 739 Capítulo 17 740 Transformação do valor (ou preço) da força de trabalho em salário 740 Capítulo 18 750 O salário por tempo 750 Capítulo 19 759 O salário por peça 759 Capítulo 20 768 Diversidade nacional dos salários 768 Seção VII 776 O processo de acumulação do capital 776 Capítulo 21 780 Reprodução simples 780 Capítulo 22 796 Transformação de mais-valor em capital 796 1. O processo de produção capitalista em escala ampliada. Conversão das leis de propriedade que regem a produção de mercadorias em leis da apropriação capitalista 796 2. Concepção errônea, por parte da economia política, da reprodução em escala ampliada 808 3. Divisão do mais-valor em capital e renda. A teoria da abstinência 812 4. Circunstâncias que, independentemente da divisão proporcional do mais-valor em capital e renda, determinam o volume da acumulação: grau de exploração da força de trabalho; força produtiva do trabalho; diferença crescente entre capital aplicado e capital consumido; grandeza do capital adiantado 820 5. O assim chamado fundo de trabalho 832 Capítulo 23 835 A lei geral da acumulação capitalista 835 1. Demanda crescente de2,5 força de trabalho com a acumulação, conservando-se igual a composição do capital 835 2. Diminuição relativa da parte variável do capital à medida que avançam a acumulação e a concentração que a acompanha 844 3. Produção progressiva de uma superpopulação relativa ou exército industrial de reserva 855 4. Diferentes formas de existência da superpopulação relativa. A lei geral da acumulação capitalista 870 5. Ilustração da lei geral da acumulação capitalista 880 a) Inglaterra de 1846 a 1866 880 b) As camadas mal remuneradas da classe trabalhadora industrial britânica 887 c) A população nômade 899 d) Efeitos das crises sobre a parcela mais bem remunerada da classe trabalhadora 904 e) O proletariado agrícola britânico 911 1. Bedfordshire 926 2. Berkshire 927 3. Buckinghamshire 928 4. Cambridgeshire 929 5. Essex 930 6. Herefordshire 930 7. Huntingdonshire 931 8. Lincolnshire 931 9. Kent 932 10. Northamptonshire 933 11. Wiltshire 934 12. Worcestershire 934 f) Irlanda 940 Capítulo 24 959 A assim chamada acumulação primitiva 959 1. O segredo da acumulação primitiva 959 2. Expropriação da terra pertencente à população rural 963 3. Legislação sanguinária contra os expropriados desde o final do século XV. Leis para a compressão dos salários 980 4. Gênese dos arrendatários capitalistas 989 5. Efeito retroativo da revolução agrícola sobre a indústria. Criação do mercado interno para o capital industrial 991 6. Gênese do capitalista industrial 996 7. Tendência histórica da acumulação capitalista 1010 Capítulo 25 1015 A teoria moderna da colonização253 1015 APÊNDICE 1028 Carta de Karl Marx a Friedrich Engelsa 1030 Carta de Karl Marx a Vera Ivanovna Zasulitcha 1032 ÍNDICE DE NOMES LITERÁRIOS, BÍBLICOS E MITOLÓGICOS 1034 BIBLIOGRAFIA 1039 I. Obras e artigos (inclusive autores anônimos) 1039 II. Relatórios parlamentares e outras publicações oficiais 1069 III. Periódicos 1075 GLOSSÁRIO DA TRADUÇÃO 1078 TABELA DE EQUIVALÊNCIAS DE PESOS, MEDIDAS E MOEDAS 1080 Pesos 1080 Medidas de comprimento 1080 Medidas de superfície 1080 Medidas de volume 1081 Moedas1 1081 CRONOLOGIA RESUMIDA 1083 E-BOOKS DA BOITEMPO EDITORIAL 1095 k Marx traduz klínai (divã, leito) por Polster (estofado, almofada). (N. T.) 1126 65 “HEk dè toû puròv tHÃntameíbesqai, fjsín ô hJrákleitov, kaì pûr äpántwn, öpwsper crusoû cramata kaì crjmátwn crusóv” [“Mas do [...] fogo surge tudo, dizia Heráclito, e de tudo surge o fogo, do mesmo modo como do ouro surgem os bens, e dos bens o ouro”], F. Lassalle, Die Philosophie Herakleitos des Dunkeln [A filosofia de Heráclito, o Obscuro] (Berlim, 1858), v. I, p. 222. A nota de Lassalle a essa passagem (p. 224, nota 3) explica incorretamente o dinheiro como mero símbolo de valor. 1148 92 “O2dèn gàr ÃnqrHpoisin oÎon Ârgurov/ Kakòn nómismH Ëblaste toûto kaì póleiv/ Porqeî, tódH Ândrav Êxanístjsin dómwn./ TódH Êkdidáskei kaì paralássei frénav/ Crjstàv próv aÏscrà prágmaqH Ístasqai brotJn./ Panourgíav dH Ëdeixen ÃnqrHpoiv Ëcein,/ Kaì pantòv Ërgou dussébeian eÏdénai” [“Nunca entre os homens floresceu uma invenção/ pior que o ouro; até cidades ele arrasa,/ afasta os homens de seus lares, arrebata/ e impele almas honestas ao aviltamento, à impiedade em tudo”], Sófocles, Antigone [ed. bras.: “Antígona”, em A trilogia tebana, trad. Mario da Gama Kury, 9. ed., Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001, versos 344-50]. 1162 93 “HElpizoúsjv tcv pleonexíav Ãnáxein Êk tJn mucJn tcv gcv a2tòn tòn Ploútona” [Em consequência da avareza, que deseja arrancar o próprio Pluto das entranhas da terra], Athen[aeus], Deipnos[ophistae] [,VI, 23]. 1163 6 Aristóteles opõe a economia à crematística, partindo da economia. Por ser a arte do ganho, ela se limita à obtenção daquilo que é necessário à vida e dos bens úteis seja à casa ou ao Estado. “A verdadeira riqueza (ô Ãljqinòv ploûtov) consiste em tais valores de uso, pois a quantidade desses bens suficiente para garantir uma boa vida não é ilimitada. Existe, no entanto, uma segunda arte do ganho, que devemos chamar, de preferência e com razão, de crematística, e para esta última parece não haver qualquer limite à riqueza e às posses. O comércio de mercadorias” (d kapjlika significa, literalmente, comércio varejista, e Aristóteles toma essa forma porque nela predominam os valores de uso) “pertence por natureza não à crematística, pois aqui a troca se dá apenas em relação ao que lhes é necessário (ao comprador e ao vendedor)”, razão pela qual, continua ele, o escambo foi a forma original do comércio de mercadorias, mas com sua expansão surgiu necessariamente o dinheiro. Com a invenção do dinheiro, o escambo teve necessariamente de se desenvolver em kapjlika, em comércio de mercadorias, e este, em contradição com sua tendência original, desenvolveu-se em crematística, na arte de fazer dinheiro. Ora, a crematística se distingue da economia pelo fato de que, “para ela, a circulação é a fonte da riqueza (poijtikb crjmátwn [...] dià crjmátwn metabolov). E ela parece girar em torno do dinheiro, pois este é o início e o fim desse tipo de troca (tò gàr nómisma stoiceîon kaì pérav tov Ãllagov Êstín), de modo que a riqueza, tal como a crematística se esforça por obter, é ilimitada. Assim como toda arte que não é um meio para um fim, mas um fim em si mesmo, é ilimitada em seus esforços, pois busca sempre se aproximar cada vez mais de seu objetivo último, ao passo que as artes que buscam apenas a consecução de meios para um fim não são ilimitadas, pois o próprio fim almejado impõe-lhes seus limites, assim também, para a crematística, não há qualquer limite a seu objetivo último, que é o enriquecimento absoluto. A economia, e não a crematística, tem um limite [...] a primeira tem como finalidade algo distinto do dinheiro; a segunda visa ao aumento deste último [...]. A confusão entre essas duas formas, que se sobrepõem uma à outra, faz com que alguns concebam como fim último da economia a conservação e o aumento do dinheiro ao infinito”, Aristóteles, De Rep. [Política], cit., livro I, c. 8, 9 passim. 1178 10 “SHzein” é uma das expressões características dos gregos para o entesouramento. Igualmente, o inglês “to save” têm os mesmos dois sentidos: salvar e poupar. 1180 d Os quiliastas (do grego cilioí: “mil”) pregavam a doutrina místico-religiosa do retorno de Cristo e do estabelecimento do “Reino Milenar” sobre a terra. Essa crença, surgida na época da decadência da ordem escravocrata, retornou mais tarde sob a forma de diversas seitas medievais. (N. E. A. MEW) 1208 78 Assim, na Odisseia, XIV, 228, lê-se: “Allov gár tH Âlloisin Ãnbr Êpitérpetai Ërgoiv” [“Pois outro homem se deleita também em outros trabalhos”], e Arquíloco, em Sexto Empírico: “Allov ÂllS ÊpH ËrgS kardíjn Ïaínetai” [“Cada um recreia seus sentidos com um trabalho diferente”]. [Marx extrai essa expressão de Arquíloco, da obra Adversus mathematicos (livro II, 44), de Sexto Empírico. (N. E. A. MEW)] 1290 79 “PollH hpístato Ërga, kakJv dH hpístato pánta” [“Ele sabia realizar muitos trabalhos, mas sabia todos mal”] – Como produtor de mercadorias, o ateniense sentia-se superior ao espartano, porque este, na guerra, podia dispor de homens, mas não de dinheiro, de acordo com o que, segundo Tucídides, teria dito Péricles no discurso em que incita os atenienses à guerra do Peloponeso. “[...] SHmasí te êtoimóteroi oï a2tourgoì tJn ÃnqrHpwn j cramasi polemeîn” [“Aqueles que produzem para sua subsistência estão mais preparados para fazer guerra com seus corpos do que com dinheiro”], Tucídides, História da guerra do Peloponeso, livro I, c. 141. Entretanto, também na produção material, a a2tarkeía [autarquia], que se opõe à divisão do trabalho, permaneceu como seu ideal, “pois com esta há prosperidade, mas com aquela há independência”. É preciso mencionar que, à época da queda dos “trinta tiranos”, não chegavam a 5 mil os atenienses sem propriedade de terra. [Trinta tiranos – Conselho instituído em Atenas após a Guerra do Peloponeso (101 a.C.), a fim de preparar uma nova constituição. Porém, essa corporação não tardou a tomar todo o poder e a instaurar um regime de terror. Depois de oito meses de domínio violento, os trinta tiranos foram derrubados e a democracia escravista foi restaurada em Atenas. (N. E. A. MEW)] 1290 80 Platão desenvolve a divisão do trabalho na comunidade a partir da multilateralidade das necessidades e da unilateralidade das capacidades dos indivíduos. O aspecto principal, para ele, é que o trabalhador tem de se ajustar à obra, e não a obra ao trabalhador, o que é inevitável quando ele exerce diversas artes ao mesmo tempo e uma ou outra delas se torna ofício secundário. “O2 gàr oîmai Êqéleitò tò prattómenon tbn toû práttontov scolbn periménein, ÃllH Ãnágkj tòn práttonta tV prattoménS Êpakolouqeîn mb Ên parérgou mérei. – HAnágkj. – HEk db toútwn pleíw te ëkasta gígnetai kaì kállion kaì 1âon, ötan eÎv Èn katà fúsin kaì Ên kairV, scolbn tJn Âllwn Âgwn, práttl” [Pois o trabalho não quer esperar pelo tempo livre daquele que o executa, mas é o trabalhador que tem de se ater ao trabalho, porém não de modo leviano – isto é necessário. Daí se segue, portanto, que se produz mais de cada coisa, e o trabalho é realizado com mais beleza e facilidade quando cada um faz apenas uma coisa, adequada a seu talento natural e no momento certo, estando livre de outras ocupações], De Republica, II, 2 (Baiter, Orelli etc.) Encontramos algo semelhante em Tucídides, História da guerra do Peloponeso, cit., p. 142: “A navegação é uma arte como outra qualquer e não pode, caso as circunstâncias o exijam, ser exercida como ofício acessório, mas, ao contrário, são as outras ocupações que não podem ser exercidas ao lado dela como ofícios acessórios”. Se a obra, diz Platão, “tiver de esperar pelo trabalhador, o momento crítico da produção será frequentemente perdido e o produto se estragará” – Ërgou kairòn dióllutai [perde-se o tempo correto para o trabalho]. A mesma ideia platônica pode ser novamente encontrada no protesto dos proprietários ingleses de branquearias contra a cláusula da lei fabril que estabelece determinado horário para as refeições de todos os trabalhadores. Seu negócio não poderia adequar-se aos trabalhadores, pois “in the various operations of singeing, washing, bleaching, mangling, calendering, and dyeing. none of them can be stopped at a given moment without risk of damage [...] to enforce the same dinner hour for all the workpeople might occasionally subject valuable goods to the risk of danger by incomplete operations” [“as diferentes operações de chamuscar, lavar, alvejar, passar, calandrar e tingir não podem ser interrompidas por momento algum sem o perigo de danos. [...] A imposição da mesma hora de refeição para todos os trabalhadores poderia ocasionalmente expor bens valiosos ao perigo, pois o processo de trabalho ficaria inacabado”]. Le platonisme, où va-t-il se nicher! [O platonismo, onde ele vai parar!] 1290 111 Esse componente do valor adicionado pela máquina diminui, em termos absolutos e relativos, lá onde ela substitui os cavalos ou, em geral, outros animais de trabalho que são utilizados unicamente como força motriz, e não como máquinas de metabolismo [Stoffwechselmachinen]. Descartes, diga-se de passagem, com sua definição dos animais como meras máquinas, enxerga com os olhos do período manufatureiro, em contraste com a Idade Média, época em que se considera o animal como auxiliar do homem, tal como, posteriormente, ele é considerado pelo sr. Von Haller em sua Restauration der Staatswissenschaften. Que Descartes, do mesmo modo que Bacon, via na forma modificada da produção, assim como no domínio prático da natureza pelo homem, um resultado das modificações operadas no método de pensar, é evidente em seu Discours de la méthode, no qual, entre outras coisas, se lê: “Il est possible [...] de parvenir à des connaissances fort utiles à la vie, et qu’au lieu de cette philosophie spéculative qu’on enseigne dans les écoles, on en peut trouver une pratique, par laquelle, connaissant la force et les actions du feu, de l’eau, de l’air, des astres, et de tous les autres corps qui nous environnent, aussi distinctement que nous connaissons les divers métiers de nos artisans, nous les pourrions employer en même façon à tous les usages auxquels ils sont propres, et ainsi nous rendre comme maîtres et possesseurs de la nature [...] contribuer au perfectionnement de la vie humaine” [“É possível” (por meio do método por ele introduzido na filosofia) “atingir conhecimentos que são muito úteis para a vida, e no lugar daquela filosofia especulativa que se aprende nas escolas, encontrar uma filosofia prática mediante a qual, conhecendo a força e os efeitos do fogo, da água, do ar, dos astros e de todos os demais corpos que nos rodeiam, e conhecendo-os tão precisamente quanto conhecemos os diversos ofícios de nossos artesãos, poderíamos empregá-los da mesma forma para todas as finalidades que lhes são próprias, convertendo-nos, assim, em donos e senhores da natureza, contribuindo então para o aperfeiçoamento da vida humana”]. No prefácio aos Discourses upon Trade (1691), de sir Dudley North, diz-se que a aplicação do método cartesiano à economia política começou a libertá-la de velhas fábulas e ideias supersticiosas sobre o dinheiro, o comércio etc. Na média geral, no entanto, os economistas ingleses da primeira época seguiram os passos de Bacon e Hobbes em filosofia, ao passo que, num período posterior, foi Locke quem se converteu em “o filósofo” katH Êxocan [por excelência] da economia política na Inglaterra, na França e na Itália. 1303
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